Mais um dia de loucos no BTT. Hoje participei na volta ao concelho de Mafra em BTT. Organizada pela Cachoeira, esta prova tem fama de ser uma das mais violentas do país. Até à praia de Ribeira d´Ilhas (50 e tal km) senti-me sempre bem. No regresso a Cachoeira (gosto deste nome) é que paguei a factura. A partir dos 75 km +/-, os nutrientes simplesmente deixaram de surtir efeito. O desgaste físico em crescendo deu cabo de mim. As subidas aos topos dos montes característicos da morfologia do terreno do concelho de Mafra eram intragáveis. Nas descidas onde pensava recuperar algum fôlego, também elas eram quase impraticáveis. A certa altura do percurso marcava no meu ciclómetro, 97Km. Com ar de satisfação perguntei a um velho, que se encontrava na berma do trilho, se faltava muito para chegar à Cochoeira. A resposta não podia ser mais desanimadora. Simplesmente referiu que não conhecia tal terra, mas que tinha ouvido falar que ficava lá para os lados de Torres Vedras. Teoricamente e na minha cabeça faltariam apenas 8km, uma vez que tinha sido divulgada pela organização uma distancia de 105Km. Lá continuei no meu calvário até à tal terra que nunca mais aparecia na linha do horizonte. Não sou de virar a cara às dificuldades nunca passou pela minha cabeça desistir. A certa altura podia ter ingerido mais alguns suplementos energéticos. Não o fiz, porque o que me apetecia mesmo era comer umas bifanas e beber umas cervejolas quando chegasse. Quis manter o meu estado de faminto por bifanas, para me saciar na CACHOEIRA. O que veio acontecer passado mais de nove horas e cerca de 120km depois de ter partido.
Preciso urgentemente de um GPS, para não depender de ninguém e fazer a minha corrida. Bem-hajam ao Paulo ao Tiago e ao Nuno, porque sem eles teria chegado mais tarde. Ou à hora que estou a escrever esta crónica ainda andaria por montes e vales à procura da dita terra. Mas foi também graças a mim que o ritmo foi mais suave, e puderam chegar mais tranquilamente à Cachoeira.
Prometo à minha mulher e aos meus filhos, voltar a montar na minha burra só de amanhã a 8 dias. Peço-lhe compreensão por ter passado mais um dia fora da família. Mas tenho que fazer aqui uma revelação: esta adrenalina também me faz falta!
Até à próxima.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
LUGARES E PESSOAS COM HISTÓRIAS
A Quinta da Vancemelha, graças ao labor do Zé Prata, tornou-se nos últimos anos num local de culto e de peregrinação frequentado por muitos.
Nesta última Páscoa e à semelhança do que aconteceu em anos anteriores, lá fui mais uma vez até à Miuzela.
Num dos passeios a pé que habitualmente realizo com a família pelas ruas da terra, cruzei-me com o Zé. Vinha ele da sua Quinta, conduzia habilmente o tractor com a mão direita enquanto a esquerda segurava cuidadosamente a sua inseparável cadela, guardiã fiel dos bens do seu dono. Logo que me avistou à distância abrandou a marcha da máquina para que pudesse parar em segurança junto de nós. Iniciei então a saudação manual da praxe. De imediato e evidenciando uma rapidez de reflexos invejável, o canídeo respondeu-me com ar ameaçador, por julgar que o seu dono corria riscos. Depois das coisas terem acalmado entre mim e cadela, após uma breve conversa para confirmar que estava tudo bem entre nós, o Zé serenamente, com o humor peculiar, o que provocou em mim uma forte gargalhada, pediu-me para cumprimentar a múmia referindo-se a um amigo que o acompanhava imediatamente atrás, sentado no atrelado. O que fiz, sem aqui revelar o nome da personagem.
Naquela breve troca de palavras ficou o convite para eu passar na sua VANCEMELHA.
O Zé Prata é conhecido na urbe afectuosamente pelo Zé Pinguinhas. A Quinta da Vancemelha é um local paradisíaco, onde o Zé acolhe a todos com a sua grande generosidade, simpatia e reconhecida hospitalidade. A portaleira para quem passa no serro, está sempre aberta. Poucos são aqueles que não conhecem a Quinta do Zé Pinguinhas.
Passados alguns dias, enquanto a Matilde a Carolina e o Francisco apanhavam marujas na lameira da quinta da Lurdes, aproveitei e por ser perto passei por lá.
Enquanto saboreávamos o precioso néctar dos deuses, falámos entre outras coisas, das vinhas e do vinho, disse-me por exemplo que estava preocupado com o futuro das castas genuínas, responsáveis pela identidade e sabor únicos do vinho da Miuzela. Referiu que está actualmente a plantar uma vinha nova com as tais que pertencem ao linguarejo popular e sabores da minha infância: bastardo, bastardinho, frogusão, rossete, alva, chasselá, etc.
O Zé Pinguinhas por ser assim, é também ele, um homem à frente do nosso tempo, numa altura em que a vinha da Miuzela está em risco de extinção, é espantoso ele querer preservar as castas. É remar contracorrente, é querer preservar a história, não há muitos assim. Boa Zé!
E foi também de homens que falámos naquela bela tarde de Primavera, à Beira-Côa, concordámos que houve pessoas que marcaram a Miuzela. Eram os HOMENS DE PALAVRA, pela sua verticalidade, credibilidade, seriedade, sensatez e sentido de justiça evidenciados, era habitual naquele tempo serem escutados e procurados, frequentemente para dirimir conflitos sociais relacionados por exemplo com desentendimento em partilhas, colocação de marcos, etc.
A PALAVRA verbalizada era escutada pelas partes em conflito diminuindo a tensão entre eles. A sua mediação contribuiu e muito para o apaziguar das relações, enquanto aumentava a felicidade das pessoas.
Foi triste vê-los partir, não devia ter acontecido, criaram um vazio impossível de preencher.
Quantos são hoje os homens de palavra?
Um abraço Zé
Por : António José do Carmo Gonçalves
Nesta última Páscoa e à semelhança do que aconteceu em anos anteriores, lá fui mais uma vez até à Miuzela.
Num dos passeios a pé que habitualmente realizo com a família pelas ruas da terra, cruzei-me com o Zé. Vinha ele da sua Quinta, conduzia habilmente o tractor com a mão direita enquanto a esquerda segurava cuidadosamente a sua inseparável cadela, guardiã fiel dos bens do seu dono. Logo que me avistou à distância abrandou a marcha da máquina para que pudesse parar em segurança junto de nós. Iniciei então a saudação manual da praxe. De imediato e evidenciando uma rapidez de reflexos invejável, o canídeo respondeu-me com ar ameaçador, por julgar que o seu dono corria riscos. Depois das coisas terem acalmado entre mim e cadela, após uma breve conversa para confirmar que estava tudo bem entre nós, o Zé serenamente, com o humor peculiar, o que provocou em mim uma forte gargalhada, pediu-me para cumprimentar a múmia referindo-se a um amigo que o acompanhava imediatamente atrás, sentado no atrelado. O que fiz, sem aqui revelar o nome da personagem.
Naquela breve troca de palavras ficou o convite para eu passar na sua VANCEMELHA.
O Zé Prata é conhecido na urbe afectuosamente pelo Zé Pinguinhas. A Quinta da Vancemelha é um local paradisíaco, onde o Zé acolhe a todos com a sua grande generosidade, simpatia e reconhecida hospitalidade. A portaleira para quem passa no serro, está sempre aberta. Poucos são aqueles que não conhecem a Quinta do Zé Pinguinhas.
Passados alguns dias, enquanto a Matilde a Carolina e o Francisco apanhavam marujas na lameira da quinta da Lurdes, aproveitei e por ser perto passei por lá.
Enquanto saboreávamos o precioso néctar dos deuses, falámos entre outras coisas, das vinhas e do vinho, disse-me por exemplo que estava preocupado com o futuro das castas genuínas, responsáveis pela identidade e sabor únicos do vinho da Miuzela. Referiu que está actualmente a plantar uma vinha nova com as tais que pertencem ao linguarejo popular e sabores da minha infância: bastardo, bastardinho, frogusão, rossete, alva, chasselá, etc.
O Zé Pinguinhas por ser assim, é também ele, um homem à frente do nosso tempo, numa altura em que a vinha da Miuzela está em risco de extinção, é espantoso ele querer preservar as castas. É remar contracorrente, é querer preservar a história, não há muitos assim. Boa Zé!
E foi também de homens que falámos naquela bela tarde de Primavera, à Beira-Côa, concordámos que houve pessoas que marcaram a Miuzela. Eram os HOMENS DE PALAVRA, pela sua verticalidade, credibilidade, seriedade, sensatez e sentido de justiça evidenciados, era habitual naquele tempo serem escutados e procurados, frequentemente para dirimir conflitos sociais relacionados por exemplo com desentendimento em partilhas, colocação de marcos, etc.
A PALAVRA verbalizada era escutada pelas partes em conflito diminuindo a tensão entre eles. A sua mediação contribuiu e muito para o apaziguar das relações, enquanto aumentava a felicidade das pessoas.
Foi triste vê-los partir, não devia ter acontecido, criaram um vazio impossível de preencher.
Quantos são hoje os homens de palavra?
Um abraço Zé
Por : António José do Carmo Gonçalves
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